CONSIDERAÇÕES SOBRE O AJUSTE COMPLEMENTAR AEB/NASA

 

 

  1. No dia 14 de outubro de 1997, em Brasília, foi firmado o "Ajuste Complementar entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo dos Estados Unidos da América para o Projeto, Desenvolvimento, Operação e Uso de Equipamento de Vôo e Cargas Úteis para o Programa da Estação Espacial Internacional".
  2. Trata-se, como o próprio nome indica, de um ajuste complementar ao "Acordo Quadro entre o Governo dos Estados Unidos e o Governo da República Federativa do Brasil sobre cooperação nos Usos Pacíficos do Espaço Exterior", celebrado em 1º de março de 1996.
  3. Pelo texto do Ajuste Complementar, a Agência Espacial Brasileira (AEB) forneceria à NASA uma série de sofisticados equipamentos que seriam instalados na futura Estação Espacial Internacional (ISS), projeto capitaneado pela agência norte-americana, e que conta a participação da Rússia, União Européia, Japão e Canadá.
  4. Em contrapartida, a NASA cederia à AEB quotas para a utilização da Estação Espacial Internacional. Isto permitiria que a AEB possa realizar experiências científicas em ambiente de microgravidade, além de enviar um astronauta brasileiro para a Estação.
  5. Aparentemente, o citado Ajuste Complementar não teria nada de mais. Contudo, muitos na comunidade científica nacional e internacional questionam a utilidade e, acima de tudo, os custos de tais experiências realizadas no espaço. Para alguns destacados cientistas, tais experimentos poderiam ser reproduzidos em terra ou em aviões por um preço bem mais acessível. Não teria sentido, portanto, a AEB injetar a sua escassa verba orçamentária num programa de utilidade duvidosa desenvolvido pela maior potência econômica do planeta.
  6. Ademais, a assinatura de tal ajuste implicou a previsão de boa parte (cerca de 50%) da verba orçamentária destinada ao Programa Nacional de Atividades Espaciais ( que engloba AEB e INPE) para o subprograma da ISS-NASA e para a preparação da Base de Alcântara (que ficará, em parte, sob controle norte-americano), em detrimento do desenvolvimento do veículo brasileiro lançador de satélites, que nos permitiria, em tese, desenvolver programa espacial autônomo.
  7. Assim, os Subprogramas da "Participação Brasileira na Estação Espacial Internacional" e da "Implantação da Infra-Estrutura Necessária ao Centro de Lançamento de Alcântara Para a Prestação de Serviços de Lançamento" vão receber, em 2001, R$ 41.500.000,00 e R$ 17.599.000,00, respectivamente, ao passo que o "Desenvolvimento de Veículos Lançadores de Satélites " receberá apenas R$ 12.371.780, 00.
  8. Saliente-se também que cerca de 60% dos contratos que a AEB fará com empresas fornecedoras para desenvolver os equipamentos destinados à ISS serão celebrados com firmas estrangeiras. Além disso, o governo brasileiro aportará ao programa da NASA um total de US $ 120 milhões, ou seja, quase 240 milhões de reais.
  9. No nosso entendimento, o Ajuste Complementar e o Acordo de Alcântara colocam o programa espacial brasileiro e a AEB em estrita dependência dos EUA. Tais acordos fazem parte, sem dúvida alguma, de uma estratégia norte-americana destinada a impedir o desenvolvimento do veículo brasileiro lançador de satélites e de um programa espacial autônomo por parte do Brasil.
  10. Entretanto, o mais grave é que o Ajuste Complementar já está em vigor e não foi enviado ao Congresso Nacional para aprovação ou rejeição, tal como determina a CF. Destaque-se que o fato de ser um "ajuste complementar" não significa que o acordo não deva ser apreciado pelo Legislativo. É por isso que todo PDL que aprova um ato internacional tem um parágrafo único, no seu artigo 1º, o qual afirma que: Ficarão sujeitos à aprovação do Congresso Nacional quaisquer atos que impliquem revisão do referido Acordo, bem como quaisquer ajustes complementares (grifo nosso) que, nos termos do inciso I do art. 49º da Constituição Federal, acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional.
  11. Ora, o referido ajuste complementar gera indubitavelmente compromissos e encargos gravosos ao patrimônio federal, não apenas porque os equipamentos que a AEB deverá desenvolver e enviar à NASA são caros e sofisticados, mas fundamentalmente devido ao fato de que tal ajuste significa clara opção por uma política tecnológica e espacial dependente da norte-americana.
  12. A expectativa do governo é que o Congresso Nacional não descubra o acordo. Caso ele seja descoberto e se questione o seu não-envio ao Legislativo, a estratégia governamental será a de argumentar que o Congresso Nacional aprovou verbas orçamentárias para os programas criados pelo acordo, e que tal fato se constituiria numa forma indireta de aprovação do ato internacional, o que é, convenhamos, um argumento ridículo.
  13. Ressalte-se, por último, que o Ajuste Complementar AEB/NASA e o Acordo de Alcântara vêem dividindo a opinião dos cientistas brasileiros vinculados ao programa espacial. De um lado, estão aqueles que defendem a tese de que o Brasil só poderia ter sucesso, nesse campo, através da associação subalterna à Nasa. De outro, estão aqueles que ainda acreditam no potencial da ciência brasileira e em conceitos em franco desuso, como o de soberania nacional.

 

 

Marcelo Zero, em 21/12/2000