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    26/3/2008 13:46:00
    ENTREVISTA: O Governo, o PT e a relação com a mídia

    Trechos da entrevista concedida por Bernardo Kucinski à Agência Repórter Social em 9 de janeiro de 2006.

     

    Como você avalia a relação da imprensa com o presidente Lula?

     

    Sempre foi muito ruim. Ele sempre foi muito maltratado pela imprensa, tirando alguns períodos - como em certo momento da greve de 1978. Fora alguns períodos, ele sempre foi muito desrespeitado. Os jornalistas não aceitam um líder político que não tenha diploma.

     

    Os jornalistas ou os donos dos jornais?

     

    Os jornalistas, não os donos. Os jornalistas não têm respeito com a pessoa do Lula. Há sempre um pressuposto de que ele vai falar besteira, vai errar, de que ele não conhece as coisas, usando como parâmetro um conceito de saber que é acadêmico. O Lula sempre foi tratado com discriminação e desrespeito. E em momentos cruciais, ele foi bombardeado com difamação. Eu me lembro que alguns momentos específicos, como aquela história do carro que ele vendeu ou dele morar numa casa de favor, coisa que milhões de brasileiros fazem. Tudo era distorcido para mostrá-lo como propenso à corrupção.

     

    Mas ele sabe que como figura pública e ainda mais como presidente que tem telhado de vidro. Ele mesmo já falou sobre isso quando ganhou as eleições.

     

    Claro. Ele tem consciência disso. Esse trato que a imprensa dá ao Lula deveria criar nele uma rejeição à mídia total, mas ele se controla. Interpretando o Lula, eu acho que ele tem uma visão não muito positiva dos jornalistas, por causa de tudo isso. Agora, o erro que o Lula cometeu é quando ele virou presidente. O Lula não soube dissociar ele como pessoa, o político que vem sendo perseguido faz anos, da figura do presidente. O presidente tem por obrigação receber a imprensa. Não importa o que ela vai fazer depois. É uma obrigação institucional. O presidente tem que falar com a imprensa e, através dela, falar com a nação. Eu acho que faltou ao Lula e ao governo a percepção dessa obrigação. O governo começou a tratar mal a imprensa, não da forma que a imprensa tratava mal o Lula – ofendendo, xingando, discriminando – Muito pior, eu acho. Ele eliminou a necessidade da imprensa. Ele passou a se comunicar diretamente, através das falas do presidente, do café do presidente, dos discursos do presidente, que é sempre uma fala vertical. Ele fala e não se submete ao questionamento. O governo até poderia ter feito isso se, ao mesmo tempo, estabelecesse um rito de coletiva, como todos os governos de países importantes fazem. Uma vez, duas vezes por semana ou todos os dias. Sempre que tiver um visitante estrangeiro, fazer uma coletiva. Tem um acontecimento importante, uma coletiva. De uma forma ritualística. Sempre no mesmo lugar, com o escudo do Brasil atrás. E isso, o governo Lula não fez.

     

    Quem é contra este tipo de comunicação no governo? O presidente Lula?

     

    A falha é do grupo que chegou ao poder. O PT tem uma tradição curiosa nessa análise. Ele tem propostas de políticas públicas para várias áreas: saúde, educação, agricultura, mas para comunicação não tem. As que ele tem, que os grupos de ativistas chegaram a fazer, nunca foram incorporadas pelo partido. Então já começou por aí (...).

     

    (...) Eu mesmo fiz inúmeros projetos e foram todos engavetados, e também por uma outra coisa que aconteceu no começo do governo, que foi o seguinte: transferiu-se da vida política do PT um padrão de comunicação que é típico do político, que é a comunicação privilegiada. Quase todo o político tem algum jornalista que ele privilegia, e ele passa informação apenas para ele, há um acordo entre eles. Foi esse o padrão que se seguiu. O padrão de comunicação do governo Lula é por um lado a fala vertical do presidente e por outro os vazamentos, que se tornaram padrão de comunicação. Vazamento de assessores muito próximos. Os vazamentos desmoralizam o governo, desmoralizam os comunicadores, insuflam a luta interna. Passa-se a fazer uma luta interna através da mídia. Usa-se a mídia para disputa interna. Vira uma distorção. Os vazamentos ou conversas reservadas com jornalistas têm um papel importante, mas ele é acessório. É legitimo chamar um grupo de jornalistas, tentar contextualizar uma situação, baseado no off. Você num certo sentido dá uma orientação, elementos para jornalistas optarem pelas prioridades dele. Isso é legitimo e necessário, mas isso tem que fazer parte de uma política de comunicação (...).

     

    O senhor critica a forma como a imprensa conduz a crise política em Brasília? O que falta para os jornalistas?

     

    Está faltando tudo. Falta conhecer história, e falta a preocupação em conhecer. Falta operosidade. Eles não trabalham a sério as questões, não vão a fundo. Estou falando do jornalista, do repórter. Você tem aí uma grife, os colunistas. Estes têm conhecimento, bons contatos, cultura, bagagem. O problema é outro.

     

    Qual?

     

    Eles têm um espaço privilegiado na imprensa porque defendem certas posições. Todos eles defendem a política econômica do Palocci, do Banco Central, defendem corte de gasto público, o Estado mínimo. Por isso, eles são premiados com espaços nobres. Há um processo de seleção na verdade. E eles estão em todos os lugares. Você abre o jornal, ele está no jornal. Você liga o rádio, ele está no rádio, você liga a TV, está na TV. Estão em todos os espaços ao mesmo tempo, porque eles estão falando aquilo que o poder quer que eles falem. Você tem exceções, mas elas são contadas nos dedos de uma mão, como o Luis Nassif, por exemplo. Em geral, eles são

    tolerados porque legitimam o jornal. Os dissidentes, os mais críticos também têm o seu espaço, mas é um espaço mais acessório, ocasional, calculado para que ele não influa no tom geral do discurso da mídia.

     

    E os repórteres?

     

    O problema do repórter é que eles estão vivendo um momento muito difícil. De extrema competição, uma carga de trabalho que não deixa espaço para um trabalho aprofundado. E nesse ambiente, com essa carga, nas circunstâncias atuais, criou-se nesse reportariado uma postura muito igual de todos eles. Sendo todos iguais, todos correm menos risco. E qual é a postura igual? Todos acham que todo o governo Lula é corrupto, tudo que todos os ministros fazem é suspeito e qualquer coisa que se faça, alguma coisa tem por trás daquilo. Como o trabalho é uma pauleira, não dá tempo de investigar direito. Aos poucos a gente foi vendo que as acusações viraram matérias; as pautas viraram matérias. Matérias inteiras que deveriam ser o ponto de partida e elas são o ponto de chegada.

     

    Mas isso não é responsabilidade dos editores, diretores dos jornais?

     

    Aí junta a fome com a vontade de comer. Eu não acho que eles (os repórteres) fazem isso porque mandam eles fazerem. Eles fazem isso porque estão possuídos por um sentimento genuíno de indignação. Eles se sentem cruzados de uma cruzada moral. Se você ousar dizer o contrário pode ser repudiado pela categoria. A palavra de ordem é acusar e linchar. Eu acho que daqui a 10 anos vai haver um mea culpa. Vão perceber que ¾ das acusações eram infundadas (...).

     

    (...) O que está acontecendo é que todo mundo acha que tem que fazer uma acusação. Tem que fazer parte de um processo histórico, como se estivesse pertencendo a uma coisa que uma geração está fazendo: a nossa geração está derrubando um governo corrupto. Todo o jornalista se sente na obrigação de contribuir com isso. Eles acreditam que estão fazendo o bem. Eles estão percebendo a superfície das coisas e não os fundamentos. Eles não percebem que todos que estão acusando o PT sempre foram corruptos. Eles estão discriminando. Acusam o PT e não os outros. A história do Azeredo, das privatizações. Ela aparece muito minimizada, para legitimar a campanha contra o governo Lula. É um fenômeno interessante, parecido com o marcartismo, que aconteceu nos EUA. Anos depois veio a critica ao marcartismo, todo mundo que era vilão virou mocinho e vice-versa.