Danilo Molina: a verdadeira autocrítica do ex-senador Cristovam

Jornalista e ex-assessor da Casa Civil rebate entrevista fantasiosa de Cristovam Buarque ao Globo: “Ainda não entendeu o motivo pelo qual não foi reeleito”

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Cristovam Buarque

É inacreditável a entrevista do ex-senador Cristovam Buarque, em O Globo, da última quarta-feira (15).  Sem votos para se reeleger senador pelo Distrito Federal e sem qualquer proposta para apresentar ao país, Cristovam recorre à simplificação do discurso para se apresentar como paladino da chamada autocrítica do campo progressista.

Ao se colocar nessa posição, ainda que sem legitimidade para tal, Cristovam atende à agenda da mídia tradicional e dos setores conservadores da sociedade brasileira. Afinal, são esses os grupos que sempre cobram a tal autocrítica do campo progressista.

Cristovam, há tempos, não figura mais entre as lideranças que compõe o campo progressista nacional. Ainda que com legítimas divergências em várias pautas, o traço comum de todas essas lideranças é a defesa radical e intransigente do estado democrático de direito, das garantias individuais e dos princípios da Constituição de 1988.

Entretanto, como todo o Brasil testemunhou ao longo do processo do golpe contra a presidenta Dilma, tais princípios deixaram de nortear a atuação política de Cristovam. Justamente por isso, a fala do ex-senador não pode ser classificada como uma autocrítica do campo progressista, mas sim como uma crítica de alguém que rompeu com o estado democrático de direito e que ainda tenta manter um verniz democrata.

Talvez uma verdadeira autocrítica do ex-senador devesse começar pela verdade histórica de que a presidenta Dilma sofreu um golpe, que começou a ser articulado no dia seguinte à vitória dela nas eleições de 2014. Caso o ex-senador não se recorde, a oposição, derrotada quatro vezes seguidas nas urnas, rompeu o pacto democrático de 1988, segundo o qual quem ganha as eleições governa e quem perde as eleições aceita o resultado.

Além da devassa nas contas da campanha da presidenta e do questionamento da confiabilidade das urnas eletrônicas, a pauta legislativa foi completamente paralisada pela articulação golpista, que passou a apostar na política do “quanto pior melhor”, em um cenário de dificuldade fiscal, com a imposição das chamadas “pautas-bombas”. Caso o ex-senador não se lembre, o golpe veio para “estancar a sangria” da Lava Jato e contou com amplo apoio da mídia e da elite conservadora nacional.

Foram as forças da direita e da centro-direita, com as quais Cristovam se aliou e permanece unido, que submergiram a frágil democracia brasileira no lodaçal de um golpe jurídico-parlamentar e midiático. Um golpe disfarçado de impeachment, afastando uma presidenta democraticamente eleita, sem crime de responsabilidade, como denuncia o documentário Democracia em Vertigem para todo o mundo.

Nunca é demais lembrar ao ex-senador que foi todo o processo do golpe, do qual ele é apoiador, que trouxe à luz as forças mais obscurantistas, conservadoras e retrógradas da nação. Foram os apoiadores do golpe que saíram às ruas de mãos dadas com grupos neofacistas, que, ainda hoje, pedem intervenção militar e condenam a democracia e a política de um modo geral.

Em sua entrevista, Cristovam omite o fato de que para concretizar o golpe, aprofundaram o discurso de ódio contra as forças progressistas, especialmente o PT, e abusaram do lawfare jurídico, que resultou na prisão política e no afastamento de Lula das eleições de 2018, que ele ganharia. Mais do que isso, o grupo que o ex-senador integra fez uma aposta perigosa no descrédito de todo o nosso sistema de representação política e na falência das nossas instituições.

Foram essas forças, as quais Cristovam se aliou, que apresentaram o bolsonarismo como uma alternativa para Brasil. Algumas lideranças o apoiaram abertamente, como fizeram as candidaturas do PSDB em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.  Outros o apoiaram de forma envergonhada e tivemos ainda a neutralidade conivente. De qual lado estava Cristovam?

A entrevista do ex-senador nada tem de autocrítica. Ao contrário, mais parece a fala de uma figura pública arrependida, que tenta se desvencilhar do monstro político, que contribuiu decisivamente para criar. Trata-se de uma tentativa de “lavar as mãos” e fingir que não tem nada a ver com o desastre político e democrático que ajudou a gestar.

Uma verdadeira autocrítica do ex-senador deveria considerar também os desdobramentos da política neoliberal, gestada pelo golpe de 2016, na vida de todos os brasileiros.  Afinal, a desigualdade social e a exclusão estão crescendo aceleradamente, com a retirada de direitos e a precarização do mercado de trabalho, o enfraquecimento dos direitos sindicais e um arrocho fiscal ortodoxo permanente, com o desmonte de políticas públicas indispensáveis para reverter esse dramático cenário social.

O golpe retirou direito dos trabalhadores e das trabalhadoras. Desmontou a CLT, aprovou a terceirização irrestrita e enfraqueceu as organizações sindicas, com apoio e voto do então senador. Então, não é demais perguntar: de qual autocrítica das forças progressistas o ex-senador está falando?

Por fim, ao afirmar que as forças progressistas não apresentam um projeto para o Brasil, Cristovam parece não estar acompanhando a atuação dos partidos de oposição no Congresso Nacional, que não se limita à crítica e à denúncia. Foi lançado o Plano Emergencial de Geração de Emprego e Renda e foi apresentado o projeto de Reforma Tributária Justa e Solidária, por exemplo.

Além disso, as verdadeiras lideranças progressistas estão comprometidas, com as centrais e movimentos populares, em impulsionar um amplo e unitário movimento sindical e popular para resistir às políticas de retrocesso nos direitos sociais, previdenciários e trabalhistas do povo brasileiro, que Cristovam apoia.

Essa entrevista de Cristovam é mais uma prova de que o ex-senador ainda não entendeu o motivo pelo qual não foi reeleito. Para se reencontrar com sua história de luta pela educação pública e pela construção da democracia no Brasil, o ex-senador Cristovam deve fazer uma verdadeira autocrítica, que reconheça o grave erro que foi golpe de 2016 e suas consequências terríveis para o país, especialmente os mais pobres. Não basta um simulacro de autocrítica, de quem parece não ter aprendido nada, mas esquecido tudo o que fez.

Danilo Molina é jornalista e possui pós-graduação em comunicação pública. Foi assessor especial da Casa Civil e assessor do Ministério da Educação.

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